Reflexão cristã: Palavras e gestos que ressuscitam
O relato do episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim encontra-se somente no Evangelho de Lucas. Tem estreita ligação com o episódio de Elias: ambos tratam da morte do filho único, cuja mãe é viúva. Os filhos únicos representam a garantia de futuro para as famílias. A situação de morte não pode deixar acomodadas as pessoas que servem a Deus.
Nos evangelhos, os sinais de cura e libertação, em sua maior parte, são realizados por Jesus em atendimento à súplica dos necessitados. No caso da viúva de Naim, porém, é Jesus mesmo que toma a iniciativa de ir ao seu encontro. “Seus discípulos e numerosa multidão caminhavam com ele.”
Naim é uma cidade amuralhada. Do seu interior para a porta vem uma procissão, acompanhando o enterro do filho único de uma viúva. “Grande multidão da cidade estava com ela.” Duas procissões em sentido contrário. Encontram-se na “porta da cidade”. Jesus vê a situação em que se encontra aquela mãe e fica comovido, isto é, “ele é movido em suas entranhas”, conforme o verbo grego (splanchnizomai). É o mesmo sentimento de amor e compaixão que leva o samaritano a socorrer a pessoa espancada e abandonada à beira do caminho (10,33); é também o mesmo sentimento que leva o pai do filho pródigo a ir correndo ao seu encontro, acolhê-lo nos braços e beijá-lo (15,20).
Jesus, movido pela compaixão, dirige-se à mulher com palavras de consolação e esperança: “Não chores”. Não são palavras de meras condolências. Ele se aproxima, toca no esquife e pede que o jovem se levante. Percebe-se, aqui também, como na narrativa de Elias, alguns verbos-chave reveladores da metodologia que proporciona a transformação de uma realidade de morte.
As pessoas que testemunham o fato glorificam a Deus, reconhecem Jesus como profeta e exclamam: “Deus visitou o seu povo”. É o eco do cântico de Zacarias, que bendiz a Deus “porque visitou e redimiu o seu povo e suscitou-nos uma força de salvação” (1,68s). Não é por acaso que Lucas situa o féretro vindo da cidade, lugar onde o poder se articula e se organiza. É como um seio que, ao invés de gerar a vida, provoca a morte. Jesus, força de salvação, vem com outro projeto que faz parar essa procissão de gente sem vitalidade. Junto com a vida, também restitui ao jovem a palavra. O povo, assim, é chamado a resgatar o direito à palavra e à vida e tornar-se protagonista de uma nova sociedade.
3. II leitura (Gl 1,11-19): A graça da conversão
Na carta aos Gálatas, Paulo aprofunda, especialmente, o evangelho da liberdade: “Foi para sermos livres que Cristo nos libertou” (Gl 5,1). A primeira dimensão dessa liberdade se verifica na própria pessoa. Neste sentido, Paulo dá o seu próprio testemunho. Quando arraigado no judaísmo, era ferrenho perseguidor das comunidades cristãs com o intuito de destruí-las. Como judeu, seguia zelosamente as tradições de Israel. Conhecia muito bem as leis e se esforçava por praticá-las, pois aprendera que a salvação de Deus seria concedida por meio da observância legalista.
Com a conversão, porém, muda radicalmente a sua visão teológica. Adquire a consciência de que Deus o escolheu desde o seio materno e o chamou por sua graça. Em seu itinerário pessoal, sempre com maior clareza e profundidade, percebe que a salvação oferecida por Deus se fundamenta na total gratuidade. A sua experiência pessoal o comprova: ele foi agraciado por Deus quando ainda era pecador e confiava nas seguranças humanas. Com essa nova compreensão, Paulo se desvencilha de seu apego à raça de Israel e lança-se ao anúncio do evangelho da salvação a todos os povos. Encontra, nessa missão, forte oposição, especialmente da parte de alguns pregadores judeu-cristãos. É o que se depreende ao ler o texto imediatamente anterior ao da liturgia de hoje (cf. Gl 1,6-10).
Esses pregadores, também conhecidos como “judaizantes”, procuravam convencer os gentio-cristãos a aderir a certas normas judaicas, especialmente à circuncisão. Certamente diziam que o evangelho pregado por Paulo não era verdadeiro. Vários cristãos deixam-se influenciar por tais pregadores. Paulo põe-se veementemente contra a doutrina desses missionários e alerta as comunidades da Galácia para não se deixarem enganar (cf. Gl 1,6-10).
Ao enfatizar o seu próprio testemunho de conversão, Paulo quer reafirmar a ação da graça de Deus, revelada em Jesus Cristo. A salvação por ele trazida estende-se a todos os povos sem discriminação. Este é o evangelho da liberdade a que todos podem ter acesso pela fé. É dom de Deus!
III. PISTAS PARA REFLEXÃO
Deus, desde a criação do mundo, estabeleceu um plano de amor e salvação para toda a humanidade. Firmou uma aliança com o seu povo, protegendo-o e amando-o com fidelidade. O egoísmo humano, porém, quebra a aliança sagrada e organiza sistemas que excluem e matam. Deus, no entanto, não abandona o seu povo. Chama pessoas, como o profeta Elias, capazes de ouvir o grito dos necessitados e comprometer-se com sua libertação. Deus envia o seu próprio Filho, Jesus, que assume o programa de anunciar a boa notícia aos pobres, proclamar a liberdade aos presos, recuperar a vista aos cegos e libertar as pessoas oprimidas (cf. Lc 4,18s). Tanto o profeta Elias como Jesus de Nazaré revelam o caminho que deve ser seguido por todas as pessoas que amam a Deus.
O desafio de uma sociedade justa e fraterna permanece atual. Os discípulos missionários do Senhor não podem acomodar-se. O testemunho de Paulo nos alerta para a necessidade do desapego das seguranças baseadas no poder, normalmente legitimado por sistemas religiosos. A liberdade em Cristo nos leva a acolher a graça da salvação que ele nos trouxe e, por isso mesmo, a amar gratuitamente os irmãos. “O povo pobre das periferias urbanas ou do campo necessitam sentir a proximidade da Igreja, seja no socorro de suas necessidades mais urgentes, como também na defesa de seus direitos e na promoção comum de uma sociedade fundamentada na justiça e na paz. Os pobres são os destinatários privilegiados do evangelho” (DAp 550).
–Pode-se fazer a memória dos profetas e profetisas de nossos tempos… Pode-se também levantar as situações de morte que nos desafiam hoje e valorizar as diversas ações que estão sendo desenvolvidas em favor da vida, estimulando a participação e a criatividade para novas iniciativas…





