AS TENTAÇÕES DE JESUS
Mons. José Maria Pereira

No primeiro Domingo da Quaresma os cristãos são levados ao deserto a fim de viverem um momento de intensa oração (Lc,4,1-13),tal como Jesus que “foi conduzido pelo Espírito Santo”. O deserto na Bíblia é o lugar privilegiado para o encontro com Deus; foi assim para o povo de Israel que nele habitou durante quarenta anos; para Elias, que nele passou quarenta dias; para João Batista que para lá se retirou desde a sua adolescência. Jesus consagra este costume e vive na solidão durante quarenta dias. No entanto, para Jesus o deserto não é apenas o lugar de retiro e da intimidade com Deus, mas também o campo de batalha suprema onde foi tentado pelo demônio.

4 - A tentação de Cristo na montanha - Briton Riviere - Guildhall Art Gallery - LondresJesus, o novo Adão, transforma o deserto em paraíso. Ele o realiza, colocando o ser humano em seu devido lugar, onde a verdadeira vida não está no pão material, mas na palavra que sai da boca de Deus. Acabada toda a tentação, o diabo o deixou até o tempo oportuno. Este tempo oportuno será o de sua paixão que acontece também em Jerusalém.

As tentações do deserto ensinam que, onde quer que se fomentem intenções ambiciosas, ânsias incontroladas de poder, de triunfo, de gloria, lá se esconde a intriga de satanás. Para destruir estas e outras possíveis inclinações para o mal, é necessário manter firme a palavra de Jesus; “adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás” (Lc 4,8); isto é, é indispensável à decisão para rejeitar qualquer proposta que impeça o reconhecimento e o serviço de Deus como único Senhor. “Como fazia todas as coisas para nos ensinar – diz São João Crisóstomo-, quis também ser conduzido ao deserto e ali travar combate com o demônio a fim de que os batizados, se depois do batismo sofrem maiores tentações, não se assustem com isso, como se fosse algo inesperado.

Jesus quis ensinar-nos com o seu exemplo que ninguém deve considerar-se dispensado de passar por provas. Ensina-nos também, com a sua conduta, como devemos vencer as tentações e como tirar proveito das provas que iremos passar. Ele, ”permite as tentações e serve-se delas, providencialmente, para te purificar, para te fazer santo, para te desprender melhor das coisas da terra, para te conduzir aonde Ele quer e por onde quer para te fazer feliz numa vida que não seja cômoda e para te dar maturidade, compreensão e eficácia no teu trabalho apostólico com as almas e…, sobretudo, para te fazer humilde, muito humilde!” (S. Canals, Reflexões Espirituais, pág.98).

Uma outra lição que Jesus nos deixa é que ninguém deve considerar-se seguro e isento de tentações; mostra-nos a maneira de vencê-las e exorta-nos, por fim, a que tenhamos confiança na sua misericórdia já que Ele também experimentou as tentações (cf.. Hb 2,18 ).

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Nas tentações do Senhor estão resumidas todas as que podem acontecer ao homem: “não diria a Sagrada Escritura, comenta Santo Tomás, que acabada toda a tentação o diabo se retirou d’Ele se nas três não se achasse a matéria de todos os pecados. Porque a causa das tentações são as causas das concupiscências: o deleite da carne o afã de glória e a ambição de poder” (Suma Teológica, III, q. 41,4).

O Senhor queria ensinar-nos os meios para vencer o diabo: a oração o jejum, a vigilância, não dialogar com a tentação, ter nos lábios as palavras de Deus na escritura, e por a confiança no Senhor. Essas são as armas.

Contamos sempre com a graça de Deus para vencer qualquer tentação. E, além das armas já indicadas, para vencer nesta batalha espiritual, podemos acrescentar outras como: a sinceridade e franqueza com o diretor espiritual, a Eucaristia e o Sacramento da Penitência (confissão), um generoso espírito de mortificação cristã, a humildade de coração e uma devoção terna e filial à Virgem Maria…

O Senhor está sempre ao nosso lado, em cada tentação, e nos diz afetuosamente: “ confiai: Eu venci o mundo” (Jo 16, 33). É no Senhor que nos apoiamos, pois “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5 ). Como diz S. Paulo: “tudo posso naquele que me fortalece” (Fil. 4,13). O Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? (Sl. 26,1).

Continuemos a caminhada da quaresma. Quarenta dias nos separam da grande festa da Páscoa. Trilhemos o caminho da conversão proposta pela Campanha da Fraternidade, cujo lema: “não podeis servi a Deus e ao dinheiro”, nos convida a optar por Deus com todo o nosso ser.