Recebi por email, um texto publicado pela Professora Ludimilla Carvalho, publicado no Jornal De Fato, sobre mudanças do cenário urbano das cidades no Brasil.

Gostaria de agradecer a Ludimilla pela participação nesse espaço e dizer que é um prazer poder contar com seus textos no blog.

Publico abaixo ipsis litteris, o texto extraído do Jornal De Fato:

A questão urbana frente à expansão das cidades
Ludimilla Carvalho Serafim de Oliveira

As metamorfoses no espaço construído nas áreas centrais trazem consigo inúmeros problemas com interfaces entre o crescimento/desenvolvimento e o perfil ideológico. Ou seja, à medida que os avanços científicos e tecnológicos acontecem, novas demandas surgem e com elas novas alternativas são propostas para o fortalecimento do capital.

Com isso, as atuais formas de reapropriação do espaço geográfico mostram o direcionamento dos sentidos e do perfil ideológico que recria os sentidos e usos dos conteúdos e materiais, a partir de denominações de um passado histórico. À medida que os novos espaços são transformados, o acesso a ele tende a acontecer com uma determinada restrição; visto que, alguns locais como praças, shoppings, condomínios verticais e horizontais são palco de grandes eventos profissionais e familiares.


De acordo com Villaça (2001), essa disputa das classes sociais por melhor localização no espaço intra-urbano acaba por colaborar para a "deterioração" do centro, pois a classe de maior poder aquisitivo ao sair descentraliza as atividades comerciais e de serviços características do centro tradicional, para outras áreas formando novos eixos na cidade.

Com isso, os novos vetores de crescimento provocaram no espaço urbano uma modificação no padrão de vida, frente a melhoria e a consolidação de alguns bairros já existentes, principalmente os populares, já que estabeleceram um novo acesso aos equipamentos comerciais.

Assim, os novos espaços que estão em construção e transformação baseiam-se nos aportes técnicos do planejamento urbano incluindo a participação e a inclusão social. Dessa forma, o planejamento para o desenvolvimento territorial constitui-se um grande desafio na atualidade.

Assim, "o espaço urbano é estruturado, quer dizer, ele não está organizado ao acaso, e os processos sociais que se ligam a ele exprimem, ao especificá-los, os determinismos de cada tipo e de cada período da organização social" de acordo com Castells (2006).

Nesse contexto, o processo de gentrificação é utilizado para designar intervenções no âmbito urbano, em determinados espaços da cidade, os quais são considerados centrais para investimentos públicos e privados. Através do processo de transformação se permite que uma localidade histórica se apresente como um cenário, um palco cheio de atrativos, como um segmento de mercado. "[...] a reabilitação de certos bairros especialmente dos centros urbanos, não passa de uma verdadeira consagração da eternidade da cena – bem polida, limpa, enfeitada, transformada ela mesma em museu". (Arantes, 1991)

No entanto, hoje se apresenta um contexto econômico no espaço urbano, que remete a uma busca de estratégias de mudanças; isto é, a aquisição de parâmetros que objetivem atender as exigências da relação capital versus trabalho, o que acaba sobrepujando, algumas ações para que atualmente, a especificação das modalidades de transformação no interior do espaço urbano se justificassem por novas necessidades e também pelos agentes oriundos da agregação de valor a seus interesses e investimentos.

Diante do exposto, entende-se que os processos de valorização provocados pela abertura de novas ruas, construção de praças, de edifícios e de uma consequente renovação, tem consolidado pouco a pouco uma evolução urbana capaz de modificar o uso e direcionar um sentido diferente aos espaços que foram alvo de gentrificação, no sentido da metamorfose do espaço construído.

É relevante destacar que a viabilização da implementação de um processo de reestruturação no espaço urbano requer o estabelecimento de alguns elementos estruturadores entre os quais vale citar: economia local, espaço público, além de manutenção e valorização do patrimônio ambiental e cultural. Estudos mostram que várias estratégias recente Jacobs (2001) procuraram atrair atividades econômicas em antigas áreas industriais, em terrenos vagos ou até mesmo em locais decadentes dos centros urbanos, deram lugar a empreendimentos imobiliários de uso misto e reverteram um processo de decadência econômica, num enfoque de reformulação capaz de compor melhorias sociais, econômicas, políticas e ambientais.

Desse modo, as modificações no eixo urbano têm provocado não só a expansão da cidade por meio da abertura de vias, porém os espaços transformados têm direcionado uma especulação imobiliária e uma mudança nos fluxos das pessoas num determinado local, conforme Villaça (2001). Ou seja, os espaços revitalizados acabam sendo também espaços de segregação, já que a dinâmica no local é envolvida por um grupo de pessoas e de atividades que segregam.

Com isso, numa nova estrutura a crise de valores se faz presente em função da desigualdade de renda e do afastamento para as periferias daqueles menos favorecidos economicamente.

Ludimilla Carvalho Serafim de Oliveira, é professora e doutoranda em Arquitetura e Urbanismo pelo PPGAU/UFRN.